O conhecido escritor Luis Veríssimo, muito respeitado nos meios intelectuais, numa coluna publicada no “O Estado de São Paulo”, em 17/03/13, que levou o sugestivo título “A loucura de Deus“, procurou fazer um contraste entre a “igreja cristã segundo Pedro“, mais mística; e a “segundo Paulo“, legalista e intolerante. Para Veríssimo, é o segundo modelo que domina o panorama cristão atual, mas a igreja segundo Pedro nunca foi derrotada, pois nela está a essência da mensagem de Cristo.

Para comprovar sua tese, Veríssimo apresentou uma citação de Paulo, tirada de 1 Coríntios capítulo 3, versículo 19: “Porque a sabedoria deste mundo é loucura para Deus“. Segundo Veríssimo, a declaração de Paulo significa descompromisso proposital da fé cristã com a razão e por causa disso sempre há disputas entre a ciência e o cristianismo.

Essa situação é muito comum: alguém que é uma autoridade em determinado assunto é convocada para pontificar sobre tema totalmente fora da sua especialização. E o que essa fala, embora quase sempre sem muita base, acaba tendo enorme peso junto à opinião pública. E tome Prêmio Nobel da Paz dando palpite sobre economia ou laureado em Física falando sobre como Deus age.

Veríssimo é um intelectual respeitado mas entende muito pouco de teologia cristã e fez uma leitura totalmente equivocada do texto bíblico.

Em primeiro lugar, não é verdade que existiu uma igreja mística, de Pedro, e outra legalista, de Paulo. A discordância que existia nos primórdios da igreja cristã, conforme relatos dos Atos dos Apóstolos e Gálatas, foi entre a igreja judaizante e a dos gentios.

A igreja dos judaizantes queria forçar que os novos convertidos, quase sempre gentios (não judeus), seguissem com rigor a Lei Mosaica – circuncisão, respeito ao sábado, proibição de comer inúmeros tipos de alimentos, etc. Enquanto isso, a outra linha de pensamento defendia que o sacrifício de Jesus tinha superado tudo isso e sua aceitação como Salvador era suficiente para qualquer pessoa tornar-se cristã.

O líder da linha judaizante era Tiago, irmão de Jesus, que contou com o apoio de Pedro (Gálatas capítulo 2, versículos 11 a 21). Já Paulo defendia a conversão das pessoas livre das regras da Lei Moisaica. E no primeiro Concílio da Igreja cristã, em Jerusalém, a linha de Paulo venceu e foi adotada, tanto que não precisamos hoje obedecer as imposições da Lei Mosaica.

Portanto, foi Paulo que lutou contra o legalismo. Foi ele quem defendeu a salvação apenas pela Graça de Deus. Portanto, a crítica de Veríssimo foi absurda e injusta. Prova apenas seu desconhecimento dos fatos.

Ainda mais, o versículo citado por Veríssimo nada tem a ver com o incentivo de Paulo para os(as) cristãos(ãs) abandonarem o entendimento, a razão. Basta ler a carta aos Romanos, cuidadosamente escrita por ele, onde usou da lógica para ensinar a doutrina cristã. Ou seu discurso em Atenas, no Areópago, quando discutiu de igual para igual com os filósofos gregos (Atos dos Apóstolos capítulo 17, versículos 16 a 31).

O que Paulo quis dizer nesse versículo é que as escolhas de Deus são diferentes das humanas. Seus princípios morais são frequentemente diferentes e chegam a não fazer sentido para nós – por exemplo, quando Ele pede para amarmos os nossos inimigos. Por isso as coisas de Deus parecem “loucura” para a sabedoria humana.

Outro aspecto importante é perceber como esses intelectuais têm preconceito contra o cristianismo. Isso está refletido na forma como vê a igreja cristã hoje em dia: os “bons” (os de Pedro) foram derrotados pelos “maus” (os de Paulo) – conforme mostrei, isso é uma fantasia pura e simples.

Não devemos nos intimidar quando essas “autoridades” tentarem desacreditar o cristianismo, usando o peso do seu conhecimento em outra área qualquer. Não devemos nos irritar e partir para ofensas e críticas pesadas a quem faz isso, pois isso só nos torna intolerantes aos olhos da opinião pública.

Devemos sim juntar argumentos lógicos e responder, desacreditando a declaração errada, como acabei de fazer acima. Só isso.

Com carinho

Fonte: Desafio de ser Cristão

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